A Reforma Tributária é uma das mudanças mais profundas já realizadas no sistema de impostos brasileiro. E mesmo sendo implementada de forma gradual, seus efeitos já começaram a transformar a gestão financeira e tributária de clínicas médicas, consultórios e hospitais.
Se você é gestor, médico empreendedor ou administrador hospitalar, este conteúdo foi pensado para explicar — de forma prática — o que realmente muda com a Reforma Tributária, quais riscos podem surgir e como preparar sua instituição para esse novo cenário, especialmente se a sua clínica já está no lucro presumido ou usufrui do benefício de equiparação hospitalar.
Por que a Reforma Tributária impacta diretamente o setor da saúde?
A saúde foi reconhecida como setor essencial, o que garante benefícios relevantes (como redução de alíquotas e tratamento diferenciado na tributação do consumo). Ao mesmo tempo, as reformas em andamento — da renda e do consumo — exigem que clínicas e hospitais revisem:
- a forma de contratar médicos
- a emissão de notas fiscais
- o controle tributário
- a gestão financeira
- a estrutura societária e o regime de tributação
A mudança não é apenas contábil. É de modelo de operação e governança.
1. Fim do pagamento “por fora”: clínicas precisarão exigir nota fiscal de tudo
Com o novo modelo de créditos tributários, qualquer despesa sem nota fiscal passa a gerar prejuízo direto.
Clínicas médicas, centros de diagnóstico e hospitais terão incentivo financeiro para exigir nota fiscal em:
- serviços médicos prestados por terceiros
- plantões, procedimentos e atendimentos complementares
- aquisição de materiais, insumos e equipamentos
- treinamentos, congressos, cursos, viagens corporativas
- serviços de consultoria, marketing, tecnologia, contabilidade e outros
Ou seja: a Reforma Tributária acelera o fim do “pagar por fora”.
O que antes era visto como “ajuste de caixa” passa a representar perda de crédito e aumento de carga tributária.
2. Hospitais e clínicas tendem a pressionar médicos PJ a sair do Simples Nacional
A lógica da reforma do consumo é baseada em créditos:
o que um paga de imposto na etapa anterior pode ser abatido na etapa seguinte.
Na prática:
- médicos no Simples Nacional geram pouco ou nenhum crédito para o hospital ou clínica;
- médicos em regimes como Lucro Presumido geram mais crédito de IBS/CBS para a instituição.
Tendência natural:
- hospitais, redes e clínicas podem passar a exigir que médicos PJ adotem regimes fora do Simples, como condição para manter ou iniciar vínculo;
- contratos de prestação de serviços tendem a incluir cláusulas específicas sobre regime tributário e emissão de nota fiscal.
Isso impacta diretamente:
- plantonistas
- médicos que prestam serviços recorrentes a hospitais
- sócios de clínicas que atuam como PJ prestadora de serviços médicos
3. Gestão financeira das clínicas ficará mais transparente (e mais exigente)
Com a reforma do consumo, a tendência é que os tributos sobre serviços sejam:
- mais visíveis (imposto destacado separadamente na nota)
- mais controlados (com mecanismos como split payment nas operações entre empresas – B2B)
Isso significa:
- necessidade de rever tabelas de preços e repasses
- maior cuidado com a formação de honorários, pacotes e diárias
- ajuste do fluxo de caixa, considerando que parte do valor será automaticamente direcionada ao fisco em algumas operações
Clínicas e hospitais que continuarem com controles financeiros frágeis terão mais risco de erro, diferença de caixa e questionamentos fiscais.
4. Relações comerciais serão redefinidas
A Reforma Tributária deve alterar o padrão de relacionamento entre:
- clínicas e médicos prestadores
- hospitais e seus corpos clínicos
- instituições de saúde e seus fornecedores estratégicos
Alguns efeitos esperados:
- exigência crescente de compliance tributário por parte dos prestadores de serviço;
- maior peso de critérios fiscais na escolha de médicos parceiros e fornecedores;
- necessidade de revisão de contratos de prestação de serviços, locação, plantões, uso de infraestrutura, etc.
Clínicas e hospitais que não revisarem seus contratos e políticas internas podem enfrentar:
- aumento de custos por falta de créditos
- exposição a autuações
- perda de competitividade frente a grupos mais organizados
5. A implementação é longa, mas os efeitos já começaram
Embora o cronograma da Reforma Tributária se estenda por vários anos, o comportamento do mercado está mudando agora:
- grandes grupos de saúde já ajustam sua estrutura tributária
- hospitais começam a revisar exigências para médicos PJ
- fornecedores e prestadores começam a alinhar regimes e emissão de notas
Esperar a “virada completa do sistema” para agir aumenta o risco de:
- perder benefícios fiscais
- tomar decisões apressadas, mal estruturadas
- pagar mais imposto do que o necessário por falta de planejamento
6. Clínicas e hospitais com equiparação hospitalar: o que muda e o que NÃO muda
Um ponto crucial para a estratégia tributária de clínicas e hospitais é o benefício de equiparação hospitalar no lucro presumido.
6.1. Como funciona hoje a equiparação hospitalar
No regime geral de lucro presumido para serviços (sem benefício), a legislação presume que 32% da receita bruta são a base de cálculo para:
- Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ)
- Contribuição Social sobre o Lucro (CSLL)
Isso resulta em uma carga combinada em torno de 10,88% sobre o lucro presumido (somando IRPJ, adicional de IR e CSLL).
Para sociedades médicas que possuem o benefício de equiparação hospitalar, essa base presumida é reduzida:
- de 32% para 8% da receita bruta no IRPJ
- e de 32% para 12% da receita bruta na CSLL
Na prática, a carga efetiva cai para cerca de 3,08%, o que representa algo próximo de 71% de redução em relação à regra geral.
É um benefício fiscal extremamente relevante para clínicas e hospitais que:
- atuam com serviços de natureza hospitalar, diagnóstico ou terapia enquadrados na norma;
- são sociedades empresárias (não sociedade simples);
- estão em lucro presumido;
- atendem às normas da Anvisa e demais requisitos regulatórios.
6.2. A reforma muda a equiparação hospitalar?
Pela lógica apresentada nos debates e nas normas em tramitação e aprovação:
- a reforma da renda (focada no Imposto de Renda da Pessoa Física mínima e na tributação de dividendos)
- e a reforma do consumo (substituição de PIS/Cofins/ISS por IBS/CBS)
não alteram diretamente as regras de IRPJ e CSLL aplicadas às sociedades médicas em lucro presumido com equiparação hospitalar.
Ou seja:
- a lógica de base presumida reduzida (8% e 12%) permanece para IRPJ e CSLL;
- o benefício de equiparação hospitalar continua sendo um dos instrumentos mais poderosos de planejamento tributário lícito para clínicas e hospitais;
- o que muda são os tributos sobre consumo (entrada de IBS/CBS com redução setorial para saúde) e a forma de tributação dos dividendos na pessoa física dos sócios.
6.3. O que clínicas com equiparação hospitalar precisam fazer agora
Se a sua clínica ou hospital já usufrui do benefício de equiparação hospitalar, ou tem potencial para isso, alguns pontos são críticos:
- Revisar se todos os requisitos continuam atendidos
- sociedade empresária formalmente estruturada
- enquadramento correto das atividades
- normas sanitárias e regulatórias em dia
- documentação de suporte ao enquadramento
- Simular o cenário com a reforma do consumo
- saída de PIS/Cofins/ISS e entrada de IBS/CBS
- impacto da alíquota setorial reduzida para saúde
- potencial de créditos em compras (que exige reorganizar as aquisições na pessoa jurídica, com nota fiscal)
- Integrar equiparação hospitalar com planejamento dos sócios na pessoa física
- mapear quanto é distribuído em dividendos
- separar claramente despesas da clínica x despesas pessoais
- evitar distribuição disfarçada de lucros (uso indevido da pessoa jurídica para gastos pessoais)
- avaliar, com cautela, estruturas como holdings — sem tratar “holding” como solução universal.
- Fortalecer governança tributária e financeira
- cruzar informações contábeis, fiscais e financeiras
- garantir que o benefício esteja bem documentado para eventual fiscalização
- alinhar contador, jurídico e gestão interna em uma mesma estratégia.
Como clínicas e hospitais devem se preparar para a Reforma Tributária: passos imediatos
1. Mapear a situação atual
- regime tributário (Simples, Lucro Presumido, Lucro Real)
- existência ou não de equiparação hospitalar
- volume e forma de distribuição de dividendos
- nível de organização contábil e documental
2. Simular cenários com e sem reforma
- impacto de IBS/CBS
- impacto de crédito sobre compras
- revisão de preços e margens
- efeito da tributação mínima na pessoa física dos sócios
3. Revisar contratos e políticas internas
- exigência de nota fiscal de médicos e fornecedores
- cláusulas relacionadas a regime tributário dos prestadores
- alinhamento de responsabilidades fiscais e de compliance
4. Profissionalizar o controle financeiro
- separar rigorosamente pessoa física e pessoa jurídica
- registrar corretamente despesas e receitas
- preparar relatórios gerenciais que apoiem decisões estratégicas
5. Contar com suporte especializado
A combinação de reforma da renda + reforma do consumo + equiparação hospitalar exige visão integrada: contábil, jurídica, financeira e regulatória.
Conclusão: equiparação hospitalar continua estratégica — mas exige mais organização
Para clínicas e hospitais, a Reforma Tributária traz:
- maior transparência
- mais controle
- menos espaço para informalidade
- mais necessidade de planejamento técnico
Para quem já possui equiparação hospitalar, o cenário é ao mesmo tempo desafiador e vantajoso:
- o benefício continua sendo um dos melhores caminhos para reduzir legalmente a carga tributária;
- ao mesmo tempo, a nova tributação da renda na pessoa física e as mudanças no consumo exigem uma revisão completa da estratégia tributária e societária.
A Descompliq Consultoria apoia clínicas médicas, centros de diagnóstico e hospitais na construção de um plano estruturado de adaptação à Reforma Tributária, incluindo:
- apoio estratégico para tomada de decisão;
- diagnóstico tributário completo;
- revisão de enquadramento e equiparação hospitalar;
- simulação de cenários;
- organização financeira e societária.
Em síntese, a Reforma Tributária não é apenas uma mudança de lei, mas um divisor de águas na forma como clínicas e hospitais se organizam, planejam e se relacionam com médicos, fornecedores e o próprio Fisco. Quem já conta com benefícios como a equiparação hospitalar tem uma oportunidade concreta de preservar e até ampliar sua eficiência tributária — desde que invista agora em diagnóstico, organização de dados, revisão de contratos e alinhamento entre gestão, contabilidade e jurídico.
A decisão estratégica não é “se” a sua instituição vai se adaptar, mas “como” e “em que velocidade”; e é exatamente nesse ponto que uma consultoria especializada em gestão e finanças na saúde, como a Descompliq, pode fazer a diferença entre apenas reagir às mudanças ou transformar esse novo cenário em vantagem competitiva sustentável.
Conte conosco para este seu desafio!

